quinta-feira, 10 de abril de 2014

Maria Rita Kehl ouve indígenas prejudicados pela ocupação do oeste do Paraná


Maria Rita Kehl, membro da Comissão Nacional da Verdade e coordenadora do GT Camponeses e Indígenas, esteve no oeste do Paraná entre os dias 28 e 31 de março para coletar depoimentos de índios da etnia guarani, que atualmente vivem em 13 aldeias espalhadas pela região.

Acompanhada de profissionais do CTI, associação que acompanha a etnia desde o final da década de 70, foram ouvidos relatos que corroboram com as denúncias feitas no relatório "Violações dos direitos humanos e territoriais dos guarani no oeste do Paraná", entregue à CNV na última semana pela antropóloga Maria Inês Ladeira. De acordo com o documento (disponível aqui), os índigenas passaram a ser perseguidos principalmente a partir do final da década de 40, quando foi construído um quartel do Exército no meio da terra guarani e se intensificou um processo, incentivado pelo governo, de colonização da região.

"Eu nasci naquela mata em que hoje é o exército brasileiro (...) E ali viviam muitos índios, que ocupavam aquela mata em que hoje é o Exército [atual Tekoha Marangatú]. (...) Daí os índios se espalharam, com a chegada do Exército. Uns foram pra cá, e outros foram pro Mato Grosso do Sul e outros foram pro Paraguai (...)" – trecho do depoimento de Pivo Benites, 63 anos, relatório da CTI.

Os "colonos", como eram chamados os primeiros moradores não-indígenas da região, receberam gratuitamente do Estado vastas áreas de terra e exploravam os guarani para trabalhar no roçado, coletar madeira na mata e outros serviços. "De Guaíra pra Terra Roxa e Umuarama não tinha estrada, só uma picada... naquela picada eles construíram a estrada, abriram espaço pra entrar um carro (...). Essa estrada que está agora com asfalto é tudo construção dos índios. Eram eles que trabalhavam antigamente" – trecho do depoimento da anciã Maria Gonçalves, 48 anos, relatório da CTI.

Segundo os mais de vinte depoimentos coletados nos quatro dias de dligência, os índios que não fugiram muitas vezes eram obrigados a trabalhar em condições de semi-escravidão. Alguns, mesmo colaborando com o "homem branco", eram mortos no final do trabalho.

Itaipu

Na aldeia Oco'y, próximo da represa, os indígenas que conseguiram fugir, muitas vezes para o Paraguai ou ainda estados vizinhos, ainda tiveram um novo desafio: quando voltaram tiveram negados seus poucos direitos, pois o Estado acusava-os de não serem índios nem brasileiros.

Isso aconteceu porque a construção da Usina de Itaipu incidiu sobre o território Guarani, que teve parte de sua área alagada com o aumento de volume de água no rio Paraná. De acordo com o relatório do CTI, o responsável pelo processo de indenização e desapropriação de terras guarani que seriam inundadas foi Célio Horst, filho de criação do ditador Ernesto Geisel. Funcionário da Funai (Fundação Nacional do Índio), o relatório da época conclui que apenas cinco famílias que moravam na região eram "índios de verdade".

Hoje, cerca de mil guaranis moram numa área de 230 hectares, considerada insuficiente pelos moradores, pois não é mais possível pescar e a terra não é tão fértil como a do território antigo. Além disso, a presença do agronegócio a poucos metros da área causa problemas, como contaminação por agrotóxicos e invasão de plantas trangênicas. Segundo Maria Rita Kehl, a questão da demarcação e homologação das terras Oco'y irão constar entre as recomendações da CNV.

Fonte: Assessoria de Comunicação

Militares relatam opressão antes e depois da ditadura

Os militares representam o grupo social mais atingido pela repressão, com cerca de 7000 vítimas, sendo 27 delas fatais; outros 10 civis, de origem militar, foram mortos.

A Comissão Nacional da Verdade e a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva" realizaram no dia 7 de abril, na Assembleia Legislativa de São Paulo, a terceira audiência pública conjunta sobre militares que resistiram ao golpe de 64 e ao período ditatorial. Na audiência, oito militares perseguidos pela ditadura militar contaram que a opressão já existia na caserna, antes mesmo de serem presos ou cassados. Essa opressão era sentida especialmente por praças, cabos e sargentos, que tinham direitos políticos e até sociais restritos.

A mesa de abertura foi composta por Adriano Diogo, presidente da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, Amélia Teles, assessora da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo e por Paulo Ribeiro da Cunha, colaborador da Comissão Nacional da Verdade e professor da Unesp.

A audiência começou com uma homenagem ao coronel da aeronáutica Alfeu de Alcântara Monteiro. Recusando-se a apoiar o golpe militar que derrubara o presidente João Goulart, o tenente-coronel foi assassinado na Base Aérea de Canoas (RS) em 4 de abril de 1964. Monteiro teria sido morto com tiros de metralhadoras nas costas no seu próprio gabinete. Foi exibida reportagem sobre projeto de lei que pretende torná-lo herói nacional.

Ao longo da audiência foram ouvidos oito militares da reserva, perseguidos durante a ditadura por atuarem na resistência democrática. O capitão Simão Keremian, nascido em Bela Vista (MS), foi incorporado ao Exército em julho de 1958. Não pertencia a nenhuma organização política, apenas se alinhava a "condutas militares legalistas e nacionalistas, conforme mandava a Constituição Federal da época". Foi cassado pelo AI-1, com a expulsão do exército e a suspensão dos direitos políticos por 10 anos. Ficou 5 anos sem documentos, sem poder trabalhar oficialmente. Segundo o capitão Keremian, "a ditadura maculou a história, introduziu a tortura, transformando jovens oficiais em torturadores e assassinos".

O capitão Francisco Fernandes Maia, em seu depoimento, contou dos problemas enfrentados por sargentos das Forças Armadas na época ditatorial: não podiam se casar, não tinham estabilidade e não podiam votar ou serem votados. Acusado de participar do Partido Operário Revolucionário Trotkista (PORT), Maia ficou preso por 9 meses, em 1965 e foi cassado pelo AI-2 em 1967. O capitão se emocionou ao relatar as dificuldades de criar seus 6 filhos com a renda familiar reduzida a metade por causa da prisão.

Aos 90 anos, o capitão reformado Moacir Correia relatou que foi incorporado à aeronáutica em 30 de outubro de 1943, voluntariando-se a fazer parte das Forças Armadas na época da 2ª Guerra Mundial. Foi preso na Base Aérea de Santos e no navio Raul Soares, fundeado no porto de Santos, onde ficou por 15 dias em um cubículo de menos de 1 metro quadrado.

O capitão José Araújo Nóbrega escapou da morte algumas vezes, em razão de perseguições em virtude de seu envolvimento com o Movimento Nacional Revolucionário e, posteriormente, com a Vanguarda Popular Revolucionária. Foi preso, torturado e dado como morto por duas vezes. Testemunhou a tortura e morte de militantes brasileiros e chilenos da época, entre os quais a do estudante Eremias Delizoicov.

A parte da tarde da audiência iniciou-se com a palestra da Doutora em História Wilma Antunes Maciel sobre a participação política e o engajamento na luta armada dos militares de esquerda.

A tomada de depoimentos foi retomada com as falas do suboficial Luiz Cachoeira, do major Antônio Pinto de Souza, do cabo Carlos Eduardo Moreira e do suboficial José Maria dos Santos. Os depoentes reforçaram as dificuldades vividas pelos militares na época: não podiam receber visitas, não podiam se casar, não podiam votar ou serem votados, não podiam se vestir à paisana. "A gente não sabia que era proibido por lei. Nenhuma constituição nos tirava esse direito. Mas a FAB tirou", contou o cabo reformado Carlos Eduardo Moreira, ao falar sobre as restrições de direitos vividas pelos militares antes de 64.

Fonte: Assessoria de Comunicação

Cessão de Tempo lembra os 50 anos do Golpe Militar

O presidente da Comitê da Verdade no Amazonas, Egydio Schwade (camisa azul), foi o convidado da Cessão de Tempo. (Foto: Elisa Garcia Maia/Aleam)

Em memória aos 50 anos do Golpe Militar, a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) realizou uma Cessão de Tempo, nesta quarta-feira (9), proposta pelo deputado estadual José Ricardo Wendling (PT). Na ocasião, o parlamentar fez a leitura, na integra, de uma nota pública da Comissão Nacional da Verdade, elaborada para homenagear as vitimas dessa época e reafirmar sua determinação em ajudar a construir um Brasil cada vez mais democrático.

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José Ricardo que destacou que considera a nota como o ponto principal “desse momento em que se reúnem várias categorias para lembrar o golpe militar”. Para o presidente do Comitê da Verdade no Amazonas, Egydio Schwade, erros cometidos no período do regime militar no Estado se repetem agora no regime democrático. Ele fez críticas aos acontecimentos ocorridos contra a população amazônida durante o período militar, diferente de outras partes do País.

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Egydio afirmou também que “em relação aos povos indígenas ainda estamos passando estradas por suas terras e construindo hidrelétricas, inundando terras sem respeito nenhum, como se tudo fosse um vazio geográfico, como bem afirmavam os militares”, afirmou.

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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Comissão Nacional da Verdade realiza reunião com a Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça.


Recebemos o convite para a mencionada reunião.

Assunto: Reunião da CNV com Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça

Prezado(a) Senhor(a),

Convido o Comitê Estadual de Direito á Verdade, Memória e Justiça do Amazonas a indicar representante para participar de reunião da Comissão Nacional da Verdade – CNV com a Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça, com o objetivo de colher sugestões para o Relatório Final desta Comissão, nos termos do artigo 11 da Lei nº 12.528, de 18 de novembro de 2011.

A reunião será realizada em Brasília, no dia 16 de dezembro de 2013, em local a ser oportunamente informado.

Atenciosamente,

JOSÉ CARLOS DIAS
Coordenador da Comissão Nacional da Verdade

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Comissão da Verdade começará estudo do Relatório Figueiredo em setembro

Por Luciana Lima - iG São Paulo
 
Coordenadora das investigações sobre a violência cometida no campo, Maria Rita Kehl planeja checar informações que considera importantes no relatório.

A análise sistemática do Relatório Figueiredo pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) deverá começar somente no segundo semestre, quando a psicanalista, Maria Rita Kehl, coordenadora das investigações sobre a violência praticada no campo se dedicará à análise da parte indígena das apurações. Nesse momento, ele está mais dedicada a apurar as violações de direitos humanos contra camponeses no período da ditadura militar.

“Tive que separar as duas investigações para me dedicar exclusivamente a uma e depois outra. O objetivo é ter uma visão mais sistematizada do que ocorreu”, disse a psicanalista.

A análise da parte indígena, ela acredita que deverá ter início em setembro. Até agora, um técnico da comissão foi designado para ler o documento que ficou desaparecido por 45 anos.

Maria Rita Kehl acredita que o documento terá muita importância para a investigação a ser feita, mas é importante que se entenda que é um documento “desigual” e por essa característica deverá ser necessária a realizações de investigações para checar histórias contadas pelo comandadas pelo antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI).
Documento aponta convênio para exploração de terras indígenas no Mato Grosso do Sul.
“É um documento amplo, muito extenso, uma vasta investigação realizada pelo procurador Jader Figueiredo para apurar denúncias de irregularidades no Serviço de Proteção ao Índio. É um relatório desigual e por isso é necessário que tenhamos o cuidado de analisa-lo porque muitas denúncias que podem estar ali podem ser fruto de intriga, outras não”, disse a psicanalista.

O relatório, que se julgava ter sido destruído em um incêndio no Ministério da Agricultura, em junho de 1967, foi encontrado intacto, no Museu do Índio, no Rio de Janeiro. O documento, a que o iG teve acesso, aponta o extermínio de tribos indígenas inteiras, métodos cruéis de tortura praticados contra índios, principalmente por interessados em suas terras e com o aval do Estado. As primeiras informações sobre a existência do relatório foram noticiadas, em abril, pelo jornal O Estado de Minas.

As torturas e as chacinas eram cometidas com o apoio do SPI, órgão criado em 1910, quando várias frentes de expansão avançavam para o interior do país. O SPI era ligado ao Ministério do Interior e funcionou até 1967, quando foi substituído pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

O documento leva o nome de seu autor, o procurador Jader de Figueiredo Correia, que morreu em um acidente de ônibus em 1976, aos 53 anos e aponta que o órgão que seria responsável por proteger os índios das violações deu aval para a violência cometida pelas chamadas “frentes civilizatórias”.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Juristas atacam posição do governo brasileiro em relação a sentença no caso Araguaia

Por Vitor Nuzzi, da RBA
Comparato lembrou que, em Direito internacional, crimes contra a humanidade não são anistiados

País 'descumpre flagrantemente' decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirma o jurista Fábio Konder Comparato. Procurador Marlon Weichert vê pouco empenho do governo.

No lançamento de um livro contendo a condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Estado voltou a ser criticado por não acatar a sentença de 2010 sobre apuração de crimes praticados durante a chamada Guerrilha do Araguaia, na primeira metade dos anos 1970. Mais uma vez, organizações e militantes defenderam a revisão da Lei da Anistia, de 1979, por considerá-la um entrave ao pleno cumprimento da sentença. “Nosso país é o único na América Latina que não processou, nem mesmo abriu inquéritos, contra agentes públicos que cometeram crimes durante o período de exceção”, afirmou o professor Fábio Konder Comparato, durante audiência pública da Comissão da Verdade paulista, na Assembleia Legislativa. A coordenadora da comissão nacional, Rosa Cardoso, participou do encontro e ouviu elogios e ressalvas.

A principal partiu do próprio jurista, ao falar da necessidade de abolir todos os “resquícios” de ditadura. “Precisamos exigir que a Comissão Nacional da Verdade enfrente esse problema. Mas enfrente não com a venda nos olhos, capote na cabeça e pedindo que todo mundo fale baixinho, para ninguém ouvir. A CNV deve falar ao povo o que está acontecendo depois que tudo o que nós sofremos com o regime militar”, afirmou Comparato. Ele afirmou que o Brasil está "descumprindo flagrantemente" a sentença da Corte Interamericana. "Essa sentença declarou que a Lei da Anistia, de 1979, é nula."

Comparato lembrou que, em Direito internacional, crimes contra a humanidade não são anistiados. "É óbvio que nenhum Estado pode tornar prescritos os crimes ou então considerá-los anistiados." Ele afirmou ainda que a Lei da Anistia foi "votada pelo Congresso sob controle direto da Presidência da República". Citou ainda o Artigo 68 da Convenção Interamericana de Direitos Humanos, pela qual os Estados partes – o que inclui o Brasil – comprometem-se a cumprir a decisão da Corte em todo caso do qual participarem. E o artigo 4º da Constituição de 1988, segundo o qual o país se rege em suas relações internacionais pelo princípio, entre outros, da prevalência dos direitos humanos.

Comparato defendeu os "esculachos", manifestações feitas sobretudo por jovens para denunciar publicamente ex-agentes da ditadura. "Eles (jovens) que nos ensinem e mostrem a todos que temos uma dignidade a respeitar." Ao lembrar que países vizinhos processaram e condenaram autoridades envolvidas em violações de direitos humanos, inclusive governantes, o jurista fez uma ironia citando conhecido verso de Manuel Bandeira: "Seria o caso de tocar um tango argentino".

O procurador da República Marlon Weichert criticou o que considera pouco empenho do Estado brasileiro no sentido de apurar violações de direitos humanos durante a ditadura. “É uma mentira quando o governo brasileiro diz que é uma atribuição da Justiça. Não é verdade que é um problema do Judiciário. É do Judiciário, do Executivo, do Legislativo e do Ministério Público.” Segundo ele, o MP tem aproximadamente 200 investigações criminais em curso. Destas, foram oferecidas seis denúncias, duas relativas ao Araguaia. Uma, contra o coronel da reserva Sebastião Curió, tem uma liminar “trancando” a ação, e outra contra o tenente-coronel também da reserva Lício Maciel, não foi iniciada porque ainda não se conseguiu citar o militar.

De acordo com Weichert, a Corte Interamericana tem resistido a gestões por uma audiência de acompanhamento, a respeito do descumprimento da sentença pelo Brasil, por avaliar que a atuação do próprio MP é vista como um andamento desse processo. Ele também criticou o papel do Judiciário. “Os juízes brasileiros estão se sentindo na autoridade de decidir sobre a competência da Corte Interamericana”, afirmou. Ele também fez uma avaliação “nada auspiciosa” sobre a busca de restos mortais pelas autoridades. “A matéria esbarra em todo tipo de justificativas burocráticas e administrativas. Existe a barreira dos enclaves e dos resquícios autoritários. O Estado brasileiro faz pouco pelo cumprimento da sentença da Corte.”

O procurador fez menção à eleição do ex-ministro Paulo Vannuchi à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), na semana passada. “Esperamos que tenham condições de cobrar uma posição mais ativa (do governo brasileiro).”

Ele também rebate o argumento de que a sentença representaria uma mera recomendação. “O que salta aos olhos é a facilidade com que brincam com argumentos teóricos. Participar da Corte Interamericana não era uma opção. Era uma decisão da Constituição (de 1988). Longe de ser um ato que viole a soberania, participar do Sistema Interamericano de Direitos Humanos é cumprir uma obrigação determinada pela Constituição. Não temos nenhuma notícia de que haja um vício de procedimento. E eu não conheço nenhuma alegação de que o presidente da República ou o Congresso Nacional tenha resolvido participar (do sistema interamericano) sob pressão de uma potência estrangeira.”

Sobre o caso de 2010, em resumo, diz Weichert, o Brasil foi parte de um processo e perdeu. E teria de cumprir a sentença determinada pela Corte Interamericana. A outra opção, no limite, seria deixar o sistema, “o que seria o maior retrocesso possível, que nenhum país do continente experimentou”.

Perversão

“A Lei da Anistia traz uma série de conceitos e definições que não podem ser aceitas pela Constituição de 1988”, acrescenta o professor José Carlos Moreira da Silva Filho, membro da Comissão de Anistia. “As ações daqueles que se insurgiram contra a ditadura não foram criminosas, foram legítimo direito de resistência”, sustenta. A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), também de 2010, ratificando a lei de 1979, representou para Moreira “a grande perversão da bandeira da anistia”. Ele manifestou expectativa com a ida do advogado Luís Barroso para o STF. “Espero que o novo ministro tenha condições de entender que o jurista brasileiro pare de achar que o Direito internacional é uma perfumaria jurídica.”

Para o advogado Belisário dos Santos Júnior, da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, o caso julgado pela Corte, embora trate primordialmente do Araguaia, é de interesse amplo em termos de cidadania. Ele também questionou as circunstâncias em que foi aprovada a Lei da Anistia em 1979, ainda sob a ditadura, com o Congresso tendo sido fechado pouco tempo antes e parlamentares da situação cassados pelo governo.

A coordenadora da CNV disse participar da audiência pública como "militante dos direitos humanos". Ressaltou a publicação da sentença em livro, por seu "caráter pedagógico", e manifestou posição semelhante em relação à necessidade de cumprimento da sentença pelo Brasil – em respeito da norma que estabelece primazia dos direitos humanos em relação ao Estado. "Os Estados civilizados querem que se crie um paradigma a partir do Direito internacional", afirmou Rosa Cardoso.

Ela observa que para o cumprimento da sentença na íntegra, seria necessária em algum momento a revisão da Lei de Anistia. A advogada lembrou que falava em nome pessoal, assim como outros integrantes da CNV. "Não existe essa discussão (sobre revisão da lei de 1979) no colegiado. Pessoas do colegiado se manifestaram." Uma avaliação nesse sentido, se houver, será incluída nas recomendações que constarão do relatório final da comissão, no ano que vem. Da plateia, outra integrante da comissão nacional, Maria Rita Kehl, assistiu à audiência pública, a 70ª da comissão paulista. No final do encontro, a coordenadora do colegiado, Maria Amélia Teles, leu moção por uma campanha nacional a favor da revisão da Lei da Anistia.

A publicação em livro da sentença da Corte Interamericana, de 24 de novembro de 2010, foi iniciativa da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, que leva o nome do ex-deputado Rubens Paiva. Embora registrem avanços na agenda dos direitos humanos, seus integrantes afirmam que "a persistência do desaparecimento forçado ainda é um bloqueio da transição política brasileira". O chamado caso Gomes Lund, relativo ao Araguaia, teve início ainda no regime autoritário, em 1982, com uma ação civil de natureza declaratória, pleiteando que a União fosse obrigada a localizar os corpos dos desaparecidos, esclarecer as circunstâncias das mortes e permitir acesso a informações sigilosas. Percorreu vários caminhos internos até chegar à Corte Interamericana, que em 2010 condenou o Brasil.

domingo, 9 de junho de 2013

Egydio Schwade na Rádio Rio Mar

Egydio Schwade, Coordenador do Comitê da Verdade do Amazonas, fala sobre a política indigenista brasileira, Dia do Índio e também sobre o Relatório do Comitê, entregue à Comissão Nacional da Verdade, na Rádio Rio Mar. Veja o vídeo em: http://youtu.be/ZrdeyGmdmaQ